22 maio 2012

agora tudo faz mais sentido. o que antes tinha cheiro bom agora tem gosto barulho.
tudo isso só porque eu to apaixonada.
e tem sensação melhor no mundo?

19 maio 2012

Entranhas.

MENÊNIO - Contra o estômago os membros se insurgiram certo dia, acusando-o de no meio do corpo colocar-se, preguiçoso sempre e inativo, e, como sorvedouro, absorver, insaciável, a comida, sem nunca contribuir com sua parte para o comum trabalho, enquanto os outros órgãos viam, andavam, refletiam,sentiam e falavam, contribuindo cada um, assim, com sua parte, para proverem às comuns necessidades e apetites do corpo. Respondeu-lhes o estômago... -
PRIMEIRO CIDADÃO - Ora bem, senhor: qual foi a resposta do estômago?
MENÊNIO - Vou dizer-vos, senhor. Com uma espécie de sorriso, que não se originava dos pulmões, um sorriso deste modo - pois, no final de contas, tanto posso dotar o estômago de fala como fazer que ele sorria - com um sorriso desdenhoso falou aos insurrectos, aos membros sediciosos que invejavam suas atividades absorventes, tal como ora fazeis, só por maldade, com nossos senadores, por não serem em tudo iguais a vós. 
PRIMEIRO CIDADÃO - Mas a resposta do estômago? Que disse? Se a cabeça de real coroa, os olhos vigilantes, o conselheiro coração, os braços nossos soldados, os corcéis - as pernas - a língua nosso trombeteiro e as outras aparelhagens e menores peças de nossa construção, se todos, disse...
MENÊNIO - E então? E então? Mas como ele é eloquente! E então, que aconteceu?
PRIMEIRO CIDADÃO - Se todos ficam lesados pelo estômago voraz, que é a sentina do corpo...
Menênio - Bem, e agora?
PRIMEIRO CIDADÃO - Se eles, os principais, fizeram queixa, que poderia responder o estômago?
MENÊNIO - Já vou dizer-vos. Se me concederdes um pouco do que quase nada tendes, que é paciência,direi sua resposta.
PRIMEIRO CIDADÃO - Quantas voltas fazeis para dizê-la!
MENÊNIO - Atenção, caro amigo! Nosso estômago, sempre grave, manteve-se tranqüilo, sem revelar exaltação nenhuma, como seus detratores. Deste modo lhes respondeu: "É certo, meus amigos incorporados", disse, "que eu recebo, antes de outro qualquer, todo o alimento de que viveis, e é justo que assim seja, por ser eu o depósito e celeiro de todo o corpo. Mas se estais lembrados, pelos canais de vosso sangue tudo de novo mando à corte, ao coração, à alta sede do cérebro, e assim, pelos sinuosos passos da oficina humana, os nervos mais potentes e as menores arteríolas de mim recebem tudo de quanto necessitam para a vida. E muito embora todos vós, a um tempo, meus bons amigos..." isso disse o estômago, observai bem. -
PRIMEIRO CIDADÃO - Pois não, senhor. Adiante!
MENÊNIO - "E muito embora todos vós, a um tempo, não vejais o que eu dou em separado para cada um, mui fácil é provar-vos por um cálculo certo e rigoroso, que recebeis de mim toda a farinha, sobrando-me de tudo só o farelo." Que dizeis a isso?
PRIMEIRO CIDADÃO - Foi resposta boa. E a sua aplicação?
MENÊNIO - Os senadores de Roma são esse bondoso estômago; vós, os membros rebeldes. Seus conselhos examinai, suas canseiras todas, e heis de reconhecer que os benefícios gerais que recebeis vêm tão-somente da parte deles, nunca de vós mesmos. E vós aí, que pensais disto, sendo, como sois, o dedão do pé do grupo?
PRIMEIRO CIDADÃO - Eu, o dedão do pé? Por que o dedão?
MENÊNIO - Porque sendo, como és, um dos mais baixos, mais pobres e ordinários desta muito sapiente rebelião, vais sempre à frente. E se assim fazes, é porque farejas qualquer vantagem própria. Vamos! Ide preparar vossas clavas resistentes, vossos bastões, que Roma está no ponto de bater-se com os ratos. Um dos lados terá de ser malhado.
Coriolano 
- William Shakespere