quinta-feira, 15 de junho de 2017

Não quero esse paradigma!

     "Na primeira aula de escrita para uma turma de pós-graduação, fiquei apreensiva. Não com o conteúdo do curso, já que estava bem preparada e gosto da matéria. Estava preocupada com o quê vestir. Eu queria ser levada a sério. Sabia que, por ser mulher, eu automaticamente teria que demonstrar minha capacidade. E estava com medo de parecer feminina demais, e não ser levada a sério. Queria passar batom e usar uma saia bem feminina, mas desisti da ideia. Escolhi um terninho careta, bem masculino, e feio.
     A verdade é que, quando se trata de aparência, nosso paradigma é masculino. Muitos acreditam que quanto menos feminina for a aparência de uma mulher, mais chances ela terá de ser ouvida. Quando um homem vai a uma reunião de negócios, não lhe passa pela cabeça se será levado a sério ou não dependendo da roupa que vestir — mas a mulher pondera.
Chimamanda Ngozi Adichie. Sejamos todas feministas. 2015. p. 40, 41.

     "A década de 1980 ficou conhecida pelos excessos e também pelo power dressing, o estilo de vestir dos profissionais do mercado financeiro norte-americano. (...) Terninhos, blazers com ombros marcados por ombreiras, blusas de gola alta e saias na altura dos joelhos. O look virou um statement para mulheres que buscavam sucesso e respeito em ambientes majoritariamente masculinos."
Chantal Sordi. Poder à vista. Elle Brasil. Edição 348. Maio de 2017. p. 69. 

     Essa semana finalmente li o livrinho da Chimamanda e decidi também ler a revista da Elle inteira (não apenas ver as imagens, mas de fato ler). Quando li essas duas partes eu acabei me identificando. Li o texto da Elle primeiro e fiquei pensando: uau! realmente é um jeito de chamar atenção e conseguir um pouco de confiança. Eu sofri com isso no trabalho, por ter sido menor aprendiz e dar a primeira impressão de menina adolescente, ninguém me levava muito a sério. Comecei a me apaixonar obsessivamente por roupas de mulheres em escritório, o que eu chamava de "Girl Boss". 
     Mas lendo o texto da Chimamanda eu me perguntei: por que? Por que eu tenho que me vestir assim pra que me deem atenção e confiem no que eu posso fazer? E aqui não falo como na história do cientista no Pequeno Príncipe que só foi levado a sério quando trocou suas roupas de palhaço por ternos padrões. Falo de eu achar que me vestindo com elementos das roupas masculinas faria com que tivessem uma visão melhor de mim: por eu não ser feminina: pelo look masculino. Por que o "girl boss" só é boss quando é o mínimo de feminino possível? 
     É difícil agora dissociar o que eu gosto desse pensamento, pois o que eu realmente acho bonito são calças de cintura alta e todo aquele poder da mulher nos anos 80: a Julia Roberts no auge que no Casamento do meu melhor amigo vestia ternos masculinos pra contrapor a imagem de princesa da sua rival e nos dar uma ideia de que a mocinha de vestido era bem mais burra e fútil do que a poderosa Julia de blazer, sapato baixo e calça de alfaiataria que exalava inteligência, perspicácia e sucesso. 
Assim como a Chimamanda fala no livro, também estou tentando desaprender várias lições que aprendi com relação a gênero.

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